V
Dez e trinta e quatro. Na salinha de espera um senhor de chapéu bonito fazia palavras cruzadas. Não sei falar com máquinas, mas elas me entendem. Essa noite sonhei com uma estrada de terra, um cachorro e um gato ruivo. 36,2º. As vísceras resmungam.

Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há na sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.
Hermann Hesse
Não acredito em deus, nem no diabo. Não acredito em pecado, macumba ou paraíso. Não acredito em pessoas que falam demais e reclamam de tudo. Não acredito em televisões nem em previsões. Não acredito nas relações humanas atuais. Mas acredito no amor. Oximoro perfeito. Ela dizia: “São tempos de dúvida em tudo e a tua certeza pode se tornar realidade.” Amor. Além do anatomicamente provável e do plasticamente perfeito. Carne, pele. Prazer. Volte sempre. Gosto do som que faz. De sentir. Da ausência de sentido. Do azul.
Vigésimo terceiro. Tão alto que não se ouve o trânsito da Rio Branco. Foram duas aulas pra compensar as semanas com feriados, trabalhos e imprevistos. Indo para análise tive a sensação de que o céu estava em negrito. Contei n’uma ligação sobre ter chorado ao passar em frente ao açougue e ele duvidou da minha sanidade mental. Tem dias que o mundo pesa na gente.

